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Impressões de um novo simulador

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Data: 05/09/1999

         Foi com grande prazer que eu aceitei o convite do pessoal da AEROVIRTUAL para testar e comentar um pouco a respeito do FLY!, o novo simulador da TRI que finalmente nos ofereceu uma alternativa de simulação de vôo à altura do Microsoft Flight Simulator. A análise do programa propriamente dito já foi feita de maneira magistral pelo nosso amigo Fábio Miguez, na edição anterior, portanto eu gostaria de comentar o programa do ponto de vista de um piloto, ressaltando o que está bom (muita coisa) e o que ainda não está.

         Em 1997 eu participei do desenvolvimento do simulador Sierra Pro Pilot da Sierra/Dynamix que também prometia ser uma revolução em termos de simulação de vôo. Foi com uma ponta de tristeza que eu, na condição de beta-tester, vi que o programa tinha problemas sérios, muitos relacionados a falta de conhecimentos elementares da dinâmica de vôo. Combinado com um lançamento prematuro, para concorrer com o MSFS 98 nas vendas de final de ano, o resultado foi um desastre total, o que se refletiu no seu sucessor, e que ameaça seriamente a credibilidade da terceira versão, o Pro Pilot 2000 que já está em fase avançada de desenvolvimento. Quanto ao outros simuladores, o 747 PS1 é FANTÁSTICO, mas é muito caro, e só interessa ao pessoal que curte uma simulação IFR "hardcore", mais voltada para o vôo de linha aérea, altamente automatizado e com enfoque na operação de sistemas. O Flight Unlimited 2 nunca chegou a ser considerado um simulador de verdade, principalmente no aspecto de IFR (não tinha sequer um ADF!). O X-Plane também é muito bom, mas seus painéis são de uma pobreza franciscana. Com a instrumentação que ele tem, não seria homologado IFR...

         Em vista destas experiências anteriores, confesso que recebi o programa com uma certa desconfiança, ainda mais depois de escutar os comentários a respeito de problemas na instalação, problemas com instrumentos e outros, em vários fóruns de debates pela Internet. Consegui os 3 CDs de instalação (um com o programa propriamente dito, um com os cenários foto-realísticos e outro com os mapas) e preparei-me para o pior. O meu computador é um Pentium II 450 com 64 Mb de memória, placa aceleradora Diamond Monster Fusion. Havia ouvido diversos reportes de problemas variados na instalação. Comigo não ocorreu absolutamente nada. A instalação foi perfeita. Optei por instalar apenas a área de Chicago e seus mapas, para poupar espaço no HD. Com a instalação completa, o programa pode ocupar até 1.6 Gb no seu HD! Um conselho a todos. Desfragmentem o seu HD ANTES e DEPOIS da instalação. Isso melhora enormemente o desempenho. Instalei em seguida os 2 primeiros patches.

         O programa inicia-se em uma interface que lhe dá duas opções. Uma delas é iniciar o vôo com alguma das situações pré-definidas (no estilo do FS98) ou então criar o seu próprio vôo. Outros menus permitem ajustar os graus de realismo, selecionar aeronave, selecionar as condições meteorológicas, ajustar controles, definir teclas (no mesmo estilo do FS98), contando inclusive, com a opção de se usar o mesmo layout de teclas do FS98 ou do Sierra Pro Pilot, para aqueles que já estão acostumados demais com a disposição do teclado. Para quem está acostumado com a interface do FS98, a do FLY podem parecer um tanto quanto pobre, mas tudo o que você precisa está lá. Gostaria até de tecer um pequeno comentário aqui. Finalmente alguém incluiu uma das coisas que mais fizeram falta nos simuladores de vôo até hoje: um ajuste de sensibilidade do trim. Há tempos eu vinha falando que em um avião real, os ajustes do compensador são milimétricos e em outros simuladores, não havia como regular esta sensibilidade. No FLY há esta opção, o que melhora muito o manejo das aeronaves.

         O programa dispõe de cinco aviões default, um Cessna 172R, um Piper Malibu Mirage, um Piper Navajo Chieftain, um Beech King Air 200 e um Hawker 800. Eu já voei na vida real o Cessna, o Navajo e o King. Por isso meus comentários vão se concentrar mais nestas aeronaves.

         No meu ponto de vista, o que mais se destaca no FLY é a necessidade de você voar a aeronave com uma mentalidade de tripulante, ou seja, não dá para entrar, apertar M++ e sair voando o avião... Você tem que seguir toda uma seqüência de scan-flows e checklists para que a aeronave possa estar pronta para decolar. Os painéis são cópias fieis das aeronaves (mostrei um painel para um comandante que não conhecia o FLY! e perguntei-lhe que avião ele achava que era aquele. Ele respondeu sem titubear: Ora! Tá na cara que isso aqui é um painel de Navajo!) e lhe permitem voar tanto no assento do comandante quanto no do copiloto. Aqui está possivelmente uma das características mais promissoras do FLY!. Imaginem a possibilidade, em uma futura versão, de duas pessoas voarem, em modo multiplayer, o mesmo avião, como uma tripulação! Com certeza esta sugestão já foi enviada ao pessoal da TRI, e imagino que em breve teremos essa possibilidade! Mesmo não podendo fazer isto ainda nesta versão, essa característica de painéis múltiplos, criticada por alguns, é na minha opinião, outro ponto a favor do FLY!. Quem já voou na vida real sabe o efeito de desorientação que ocorre quando desviamos o olhar do horizonte artificial para operar algum sistema, selecionar algum rádio, ajustar as manetes, etc. Você desvia o olhar, e se não ficar atento, o avião entorta... Exatamente como na vida real. Na minha opinião, não há nada comparável, em termos de painéis, aos do FLY!.

         Os flight models são, no geral, bons. Os modelos ainda estão muito sensíveis em pitch, embora sejam estáveis, ou seja, você voa mais com o compensador. Uma característica interessante é que os modelos não são tão estáveis em rolamento, o que corresponde à vida real. No FS98 os aviões pareciam ter "molas" para fazê-los retornar ao vôo nivelado tão logo você soltasse o manche em uma curva. Na vida real acontece justamente o contrário, a aeronave tende a "fechar" cada vez mais a curva, a partir de uma certa inclinação, e se você se descuidar, ela entra em atitude anormal, exatamente como no FLY...

         Não gostei do comportamento em guinada de todas as aeronaves. Isso parece ser um problema inerente ao simulador, e pelos comentários que tenho lido, a TRI deve melhorar isso no próximo patch (atualização). Aliás, falando em patch, já foram lançados três, em menos de 1 mês, prova de que a equipe está trabalhando para consertar todos os problemas e amadurecer o simulador.

         As nuvens são um capítulo a parte. Dá quase para sentir a sensação de "frio" ao se aproximar delas! Um colega meu foi fazer um vôo visual abaixo dos mínimos entre O’Hare e Meigs Field, um típico "scud running" e sentiu as mesmas ilusões de ótica causadoras de desorientação espacial que ocorrem na realidade, e que vitimam pilotos que não sabem voar IFR e tentam "ciscar" a baixa altura.

         Os cenários são uma questão interessante. Nos EUA, a área foto-realística está relativamente bem representada, se bem que eu achei o cenário do FS98 melhor no aspecto de vôo a baixa altura. No Brasil, temos mais de 400 aeroportos! Ok.. Ok.. são apenas as pistas, nada mais, mas para treinar IFR tá ótimo. E o mais incrível é que a maioria absoluta dos Navaids está bem posicionada. Fiz diversos procedimentos em vários aeroportos e os VORs e NDBs estavam quase todos em seus lugares corretos. A única falta grave que eu vi foi o VOR de Congonhas, que estava exatamente sobre a pista 17L... A pista do Santos Dumont também está com sua numeração errada, mas se você fizer o procedimento IFR, vai sair alinhado com ela, como na vida real.

         Para saber o grau de realismo de um simulador, nada melhor do que chamar um piloto que não esteja acostumado com o programa e pedir para ele voar a aeronave. Foi exatamente o que eu fiz. Chamei um colega meu que voa um King Air B-200 na vida real e pedi-lhe que acionasse o avião. Ele ficou extremamente surpreso com o posicionamento correto de todos os instrumentos e interruptores. Fizemos os checklists exatamente como no avião real, e fomos para o vôo. A performance do avião ficou muito semelhante a do original, a única ressalva foi quanto ao arrasto dos flaps na aproximação final. Os sistemas operam de maneira muito parecida com o avião verdadeiro, tendo algumas falhas em alguns pontos, tais como o sistema de combustível, a posição das condition levers durante o acionamento, a pressurização e mais alguns detalhes. Esses bugs, no entanto, não chegam a tirar o prazer de voar a aeronave.

         O Cessna 172 também está com um modelo de vôo muito bom. Apenas o detalhe da alta sensibilidade do comando de pitch é que está destoante. Fiquei surpreso de não ver um DME no painel. Vou conferir com o pessoal da TAM, que representa a Cessna aqui no Brasil se o DME é opcional no painel do C-172R. O GPS que equipa as aeronaves está muito bem representado, embora não tenha todas as opções do real.

         O Piper Malibu Mirage é um avião muito interessante. Combina as características de uma aeronave de alto desempenho e capaz de voar no FL 250, com a docilidade de manejo e baixas velocidades de aproximação típicas de um monomotor a pistão. Seu modelo de vôo, no entanto, ainda requer algum ajuste, pois ele está muito rápido com altos regimes de potência. O seu painel é um dos melhores e mais completos que já vi.

         O Hawker 800 ainda apresenta alguns problemas de desempenho e grandes altitudes e algumas características do seu painel, tais como o FMS, que estão incompletas. O seu painel apresenta uma série de recursos, tais como seleção de V-Speeds, que requerem uma boa lida no manual. Já temos várias páginas na Internet com textos explicativos mostrando como operar cada uma das aeronaves.

         Na minha opinião o Piper Navajo é quem dá o show do FLY!. O modelo está muito bem representado. O painel é perfeito. Quanto ao desempenho em vôo, ele está muito próximo do real. Para vocês terem uma idéia, o "Navajão", quando carregado tem uma tendência a "embarrigar" na decolagem, quando ele nem acelera nem sobe... Essa característica está modelada no FLY!... Esqueça de abrir os cowl-flaps e a temperatura da cabeça de cilindro sobe... Em cruzeiro a sua performance condiz com o manual. Uma característica surpreendente foi a necessidade de se sincronizar os motores... Tentei ativar a sincronia automática mas não ficou muito bom (como no avião real) e experimentei reduzir uma manete de passo individualmente... Perfeito! O radar meteorológico funciona bem, embora eu o ache muito sensível. Como a antena não é estabilizada, ao fazer uma curva, você recebe retorno de solo... Na aproximação, ele requer uma especial atenção com a velocidade, pois quando full flap, o seu arrasto aumenta consideravelmente, da mesma maneira que na aeronave real. Se você der um power-off no pouso, vai ser uma placada garantida, como no avião real... No quesito vôo monomotor, embora a guinada e a assimetria resultantes da perda do motor não esteja bem modeladas, a performance do avião ficou muito semelhante ao do avião real. Cortei um motor logo após a decolagem do Santos Dumont com o avião lotado, e mal e mal consegui fazê-lo voar... Creio que caso seja corrigido o problema de guinada, será um excelente treinador de multimotor.

         Uma coisa que eu não gostei foi a falta de "crash" e de falhas de sistemas nos aviões. A história da TRI, de que era para manter "boas relações" com os fabricantes não colou... Mas já que não podemos quebrar o avião, que tal ao menos poderem deixar ocorrer falhas? Fica aqui uma sugestão. Por que não fazer como no antigo ATP, onde após um vôo, era exibida uma lista com tudo de errado que você fez, e lhe era conferida uma pontuação, baseado em uma série de fatores? Seria uma maneira de agradar a gregos e troianos.

         Finalizando, eu gostaria de dizer que o FLY! é um simulador com um imenso potencial, e que tem sobre o MSFS a vantagem de ter começado do zero. O MSFS ainda usa uma grande parte do "engine" do antigo FS5.1, o que por um lado lhe confere uma ampla base de add-ons e cenários, e por outro, impede uma mudança radical, como foi da versão 4 para a 5. No caso do FLY!, a tecnologia usada é a mais recente. Há também a arquitetura aberta, e já começaram a surgir aviões novos, e um criador de cenários está para ser lançado. Somado com mais patches, tenho certeza de que o FLY! veio para ficar!



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